Carta ao Globo Repórter
22 de novembro de 2008
Ontem, após assistir ao Globo Repórter sobre a pesca no Brasil, fiquei bastante apreensiva sobre a forma como a questão foi tratada e decidi enviar uma mensagem para o site do programa. Abaixo está o texto, na íntegra.
Boa noite. Acabo de assistir ao Globo Repórter sobre a pesca no Brasil e tenho algumas considerações a respeito.
Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar a equipe pela escolha da pauta. Entretanto, a meu ver, um assunto tão delicado como a pesca – uma vez que envolve ecologia, economia, saúde e aspectos socioculturais – não foi tratado com a devida atenção.
Digo isso porque, apesar de terem sido citados os aspectos ambientais e a situação alarmante em que se encontram os estoques (?) pesqueiros do Brasil (e do mundo), faltou enfatizar que essa questão é MUITO grave e que é um dever de todos contribuir para amenizá-la. Pior ainda: houve uma espécie de enaltecimento de uma atividade que é sabidamente um dos maiores crimes praticados em ambiente marinho: a pesca industrial.
Logo no 1º bloco, os espectadores assistiram à glorificação desse tipo de pesca, que se baseia num modelo predatório em que só se extrai, sem que nada seja feito para mitigar os impactos. Nem uma só palavra foi dita sobre a falta de sustentabilidade dessa pesca – que revolve o fundo do mar, devasta comunidades bentônicas e nectônicas (haja vista o expressivo o número de arraias mostradas), tem rejeitos significativos e injustas capturas incidentais (até mesmo de espécies protegidas, tais como tartarugas e cetáceos, ou o mero, também mostrado) – justo numa época em que todos se pretendem tão “verdes”, “sustentáveis” e a favor da natureza.
Faltou coragem para denunciar o que está por trás dessa indústria que enriquece enquanto nossa desprotegida fauna sucumbe nas redes puxadas por homens talvez tão desprotegidos quanto ela, já que arriscam suas vidas nesse ofício e não têm sequer o direito a um padrão digno de vida. Além disso, a Rede Globo, como principal formadora de opinião no Brasil, poderia aproveitar o programa para incentivar a participação da população em iniciativas contra esse modelo pesqueiro predatório – com a exigência de uma maior fiscalização do que ocorre na pesca e de uma maior proteção aos ecossistemas marinhos – e ainda levantar a necessária bandeira contra a poluição dos oceanos.
Ao contrário, com uma visão excessivamente antropocêntrica, a emissora apenas enalteceu a coragem dos bravos homens do mar e incentivou um consumo ainda maior de peixe, principal fonte de Ômega 3. Não que esses pontos estejam errados ou tampouco sejam irrelevantes. De fato, os pescadores são merecedores de aplausos, especialmente os artesanais – com destaque para os de pirarucu, pela paciência e perseverança – e o Ômega 3 é comprovadamente muito bom para a saúde humana. Em suma, peixe é bom, todo mundo gosta e ainda gera emprego e renda.
OK, mas faltou o outro lado da moeda. Nada foi dito sobre a vulnerabilidade do atum em nossas águas. Nenhuma palavra sobre as estatísticas da FAO, IUCN, CITES a respeito da sobreexplotação dos recursos pesqueiros. Ah, essas siglas são desconhecidas? Sobreexplotar é uma palavra difícil? Pois é. Foi exatamente aí que a Rede Globo pecou em seu papel de comunicadora.
Os brasileiros têm direito de acesso a essas informações. Afinal, vai ser muito triste descobrir que não dá para viver sem Ômega 3 justamente quando a maior fonte desse ácido graxo está secando (com o perdão do trocadilho). Foi louvável falar sobre a questão da sardinha, mas insuficiente diante da gravidade do problema como um todo.
Faltou um jornalista ambiental ou científico na equipe. Faltou disponibilizar o contato de instituições sérias (ONGs, universidades…) que tentam a todo custo impedir que nossos mares virem imensos desertos de água salgada. Faltou permitir que os milhões de espectadores dessa emissora saibam que, se algo de urgente não for feito, as conseqüências serão irreversíveis. Já a visão profundamente egocêntrica que caracteriza a espécie humana, essa teve de sobra. A prova é que o assunto do chat depois do programa foi o bendito Ômega 3, excelente para o homem e péssimo para as toneladas e toneladas de peixes que morrem para nós, os poderosos, possamos continuar nosso impiedoso reinado sobre a Terra e, é claro, sobre os mares.




