EcoPapo

Espaço dedicado a comentar, debater, divulgar e trocar experiências sobre meio ambiente (ecologia, biologia marinha, educação ambiental, ecoturismo, gestão ambiental, consumo consciente, sustentabilidade, marketing verde, etc.).

Carta ao Globo Repórter

22 de novembro de 2008

Ontem, após assistir ao Globo Repórter sobre a pesca no Brasil, fiquei bastante apreensiva sobre a forma como a questão foi tratada e decidi enviar uma mensagem para o site do programa. Abaixo está o texto, na íntegra.

Boa noite. Acabo de assistir ao Globo Repórter sobre a pesca no Brasil e tenho algumas considerações a respeito.

Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar a equipe pela escolha da pauta. Entretanto, a meu ver, um assunto tão delicado como a pesca – uma vez que envolve ecologia, economia, saúde e aspectos socioculturais – não foi tratado com a devida atenção.

Digo isso porque, apesar de terem sido citados os aspectos ambientais e a situação alarmante em que se encontram os estoques (?) pesqueiros do Brasil (e do mundo), faltou enfatizar que essa questão é MUITO grave e que é um dever de todos contribuir para amenizá-la. Pior ainda: houve uma espécie de enaltecimento de uma atividade que é sabidamente um dos maiores crimes praticados em ambiente marinho: a pesca industrial.

Logo no 1º bloco, os espectadores assistiram à glorificação desse tipo de pesca, que se baseia num modelo predatório em que só se extrai, sem que nada seja feito para mitigar os impactos. Nem uma só palavra foi dita sobre a falta de sustentabilidade dessa pesca – que revolve o fundo do mar, devasta comunidades bentônicas e nectônicas (haja vista o expressivo o número de arraias mostradas), tem rejeitos significativos e injustas capturas incidentais (até mesmo de espécies protegidas, tais como tartarugas e cetáceos, ou o mero, também mostrado) – justo numa época em que todos se pretendem tão “verdes”, “sustentáveis” e a favor da natureza.

Faltou coragem para denunciar o que está por trás dessa indústria que enriquece enquanto nossa desprotegida fauna sucumbe nas redes puxadas por homens talvez tão desprotegidos quanto ela, já que arriscam suas vidas nesse ofício e não têm sequer o direito a um padrão digno de vida. Além disso, a Rede Globo, como principal formadora de opinião no Brasil, poderia aproveitar o programa para incentivar a participação da população em iniciativas contra esse modelo pesqueiro predatório – com a exigência de uma maior fiscalização do que ocorre na pesca e de uma maior proteção aos ecossistemas marinhos – e ainda levantar a necessária bandeira contra a poluição dos oceanos.

Ao contrário, com uma visão excessivamente antropocêntrica, a emissora apenas enalteceu a coragem dos bravos homens do mar e incentivou um consumo ainda maior de peixe, principal fonte de Ômega 3. Não que esses pontos estejam errados ou tampouco sejam irrelevantes. De fato, os pescadores são merecedores de aplausos, especialmente os artesanais – com destaque para os de pirarucu, pela paciência e perseverança – e o Ômega 3 é comprovadamente muito bom para a saúde humana. Em suma, peixe é bom, todo mundo gosta e ainda gera emprego e renda.

OK, mas faltou o outro lado da moeda. Nada foi dito sobre a vulnerabilidade do atum em nossas águas. Nenhuma palavra sobre as estatísticas da FAO, IUCN, CITES a respeito da sobreexplotação dos recursos pesqueiros. Ah, essas siglas são desconhecidas? Sobreexplotar é uma palavra difícil? Pois é. Foi exatamente aí que a Rede Globo pecou em seu papel de comunicadora.

Os brasileiros têm direito de acesso a essas informações. Afinal, vai ser muito triste descobrir que não dá para viver sem Ômega 3 justamente quando a maior fonte desse ácido graxo está secando (com o perdão do trocadilho). Foi louvável falar sobre a questão da sardinha, mas insuficiente diante da gravidade do problema como um todo.

Faltou um jornalista ambiental ou científico na equipe. Faltou disponibilizar o contato de instituições sérias (ONGs, universidades…) que tentam a todo custo impedir que nossos mares virem imensos desertos de água salgada. Faltou permitir que os milhões de espectadores dessa emissora saibam que, se algo de urgente não for feito, as conseqüências serão irreversíveis. Já a visão profundamente egocêntrica que caracteriza a espécie humana, essa teve de sobra. A prova é que o assunto do chat depois do programa foi o bendito Ômega 3, excelente para o homem e péssimo para as toneladas e toneladas de peixes que morrem para nós, os poderosos, possamos continuar nosso impiedoso reinado sobre a Terra e, é claro, sobre os mares.

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CONTINUAÇÃO DO POST SEMENTES DO PODER

19 de novembro de 2008

Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.

Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.

Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.

Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.

A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”.

Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.

Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.

Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.

Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).

De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.

Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados.

Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.

A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.

Os cientistas, conta o livro, são frequentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian revelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.

 

Disponível em http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=9&i=475

(Revista Carta Capital)

SEMENTES DO PODER (o jogo sujo da Monsanto)

Por Christina Palmeira, de Paris

 

A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.

Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional.

O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.

Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.

A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa

Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.

Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.

A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.

Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960).

Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.

Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.

Orgânicos X Transgênicos

17 de novembro de 2008

ORGÂNICOS X TRANSGÊNICOS - A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA


José Augusto Pádua*, Especial Para a Folha

A ciência descobre, a tecnologia executa, o homem obedece." As palavras escritas no portal da Feira Mundial de Chicago, em 1933, sintetizam a postura submissa que ainda caracteriza a relação de importantes setores da opinião pública contemporânea com as inovações tecnológicas.

No vazio das antigas certezas religiosas, a ciência tornou-se para muitos a única fonte confiável de verdade. É irônico observar, porém, que o próprio movimento da modernidade global age no sentido de dissolver a aura de devoção construída em torno do complexo ciência & tecnologia.

O número cada vez maior de pessoas escolarizadas, a velocidade e a intensidade dos meios de comunicação, o estabelecimento de múltiplos espaços para o confronto de opiniões vêm contribuindo para gerar sociedades que discutem cada vez mais seu presente e futuro.

O que está sendo discutido, na verdade, não são os limites da ciência, mas sim o alcance da democracia na alta modernidade. Nesse sentido, a surpreendentemente forte reação de diversos atores sociais aos alimentos transgênicos, especialmente dos consumidores europeus, representa um caso paradigmático.

A pressão democrática para que a produção de organismos geneticamente modificados seja debatida de forma intensa e transparente, com uma moratória no seu uso, contribui para dar visibilidade aos condicionantes econômicos que controlam grande parte da atual pesquisa técnico-científica.

E serve também para expor o uso da ideologia da pureza do progresso científico como instrumento para justificar decisões empresariais fundadas em objetivos bem menos etéreos, tais como o aumento dos lucros e o controle dos mercados.

Princípio de precaução

Não se trata de coibir a pesquisa acadêmica. O esforço de politização das novas tecnologias, com exceção de algumas poucas vozes especialmente radicais, não passa pela defesa de uma censura da investigação teórica ou experimental.

O problema está na difusão social precoce, por motivos calcados essencialmente na busca por poder econômico, de técnicas perigosas que ainda estão sob intenso debate científico. Ou seja, uma clara violação empresarial do chamado "princípio da precaução", que estabelece, diante da incerteza, que não se devem adotar atividades ou técnicas cujas conseqüências, se negativas, podem ser irreversíveis ou além da nossa capacidade de controle.

Os organismos geneticamente modificados, na medida em que são seres vivos, podem mesclar-se com outros organismos e penetrar nas cadeias ecológicas planetárias, reproduzindo-se de forma descontrolada. É tolice, pois, associar os transgênicos à modernidade e os orgânicos ao arcaísmo.

No setor da produção orgânica, por exemplo, que está crescendo como uma alternativa ao modelo transgênico, existe hoje um grande investimento científico. Não se trata de aceitar passivamente os movimentos da natureza, mas sim de buscar ativamente, por meio de um conhecimento ecológico fino e sofisticado, formas de potencializar a produtividade e a capacidade de sustentação das lavouras.

Mas seria ingênuo supor que a polarização entre transgênicos e orgânicos esteja fundada em uma disputa apenas técnico-científica. Trata-se, mais do que tudo, de uma questão de poder. A agroecologia, por suas características concretas, não facilita a concentração de poder assim como não favorece o estabelecimento de monopólios, patentes e pacotes tecnológicos.

A gestão ecológica da agricultura requer desenhos locais, que dialoguem com as condições específicas de cada domínio do território. Seus insumos, além disso, são renováveis e recicláveis.
No núcleo da pressão pelos transgênicos se encontra a fome de poder de um número restrito de enormes conglomerados empresariais, que, no limite, buscam usar as novas tecnologias para dominar a oferta de sementes e reduzir a autonomia dos agricultores e, por extensão, das sociedades.

É assustador imaginar um futuro em que algo tão vital como as sementes -assim como as fontes da alimentação em geral- estejam nas mãos de pouquíssimas corporações. O consumidor, ao optar pelo que comer e por qual modelo favorecer, pode estar fazendo política no mais alto grau.

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*JOSÉ AUGUSTO PÁDUA é professor do departamento de história da Universidade Federal do RJ e autor de "Um Sopro de Destruição".

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Harmonia

14 de novembro de 2008

                             

Gente, eu acho essa imagem uma coisa linda! É um retrato da perfeita integração do homem com os outros animais. Precisamos resgatá-la!

Fonte: Google

Intimidade ecológica - André Trigueiro

TEXTO BELÍSSIMO, FALANDO DE NOSSA TANTAS VEZES ESQUECIDA PROXIMIDADE COM O MEIO NATURAL.

Todos nós trazemos no corpo as marcas de uma profunda identidade com o planeta. São marcas profundas, viscerais, que não podem ser apagadas. A primeira delas é a água. O mais fundamental dos elementos está presente em nosso corpo na mesma proporção em que aparece no globo terrestre. As lágrimas que derramamos de dor ou de alegria tem o sabor dos oceanos.

A água do mar tem quase a mesma consistência do soro fisiológico. Em nosso sangue carregamos a terra, pulverizada nos sais minerais, que vitalizam tecidos e órgãos. Ferro, cálcio, manganês, zinco, que jazem nas profundezas do solo, correm pelas nossas veias.

Desde o primeiro choro, quando inauguramos as vias respiratórias e inalamos pela primeira vez o ar que enche os pulmões, participamos de um grande espetáculo da natureza, que revela em pequenos detalhes, a grandeza do universo. Nossa principal fonte de energia é o ar. Podemos suportar dias sem comer ou beber. Mas não podemos ficar tanto tempo sem ar. Enchemos os pulmões de oxigênio e devolvemos gás carbônico para a atmosfera. Esse gás é absorvido pelas espécies vegetais, que através da fotossíntese, devolvem generosamente, oxigênio. Como se vê, interagimos intensamente com o meio natural. Nos confundimos com esse meio ambiente. Somos parte dele e ele de nós.

Neste início de terceiro milênio, quando a humanidade estabelece novos recordes de destruição dos recursos naturais, perdemos o contato com a Mãe Terra e, não por acaso, com nós mesmos. Na agitação da vida moderna, vivemos encubados em casas e apartamentos, elevadores, escritórios, ônibus e carros. O tempo do relógio se sobrepõe ao tempo natural, em que cada coisa acontece na hora certa, sem angústia ou ansiedade.

Esquecemos de nos conectar ao que empresta sentido à vida, que é a própria vida em essência, com um imenso repertório de ensinamentos. Assim, deixamos de olhar para o céu e perceber como está o tempo, perder alguns segundos admirando o esplendor de uma manhã ensolarada, o prazer do vento que desgrenha os cabelos trazendo alívio e frescor, o horizonte sem limites do mar azul, a imponência das montanhas, o brilho cintilante de uma estrela que atravessa milhões de quilômetros na velocidade da luz, e que depois de driblar as nuvens e a poluição, aparece no céu sem que percebamos seu esforço heróico.

Mergulhados em afazeres mais urgentes, nos afastamos de nossa essência. Será coincidência que o avanço da destruição da natureza se dá na mesma velocidade com que registramos o crescimento das estatísticas de depressão e suicídio? É preciso refazer os elos e perceber com humildade que as pequenas coisas da vida encerram as grandes verdades da existência. O mundo está em nós e nós no mundo. O meio ambiente começa no meio da gente.

Disponível em www.mundosustentavel.com.br

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Por um Brasil livre de transgênicos

13 de novembro de 2008

Que a questão dos transgênicos é polêmica não é novidade pra ninguém. Porém, eu não sabia que a coisa era tão séria e com tantos interesses políticos e corporativos, como os dos oligopólios formados pela Monsanto, Bayer, Basf, Dupont e Syngenta, entre outras empresas.

Tive hoje a oportunidade de assistir à palestra de Gabriel Bianconi Fernandes da ONG AS-PTA, dedicada à agricultura alternativa. Depois disso, me senti na obrigação de divulgar o trabalho da ONG e levantar uma bandeira contra os transgênicos.

Afinal de contas, estes entraram ilegalmente no Brasil, já que sua legalização só ocorreu em 2005 (sem EIA / RIMA!!!!) e devido à pressões ruralistas do Congresso e corporativas das empresas anteriormente citadas. As primeiras sementes de soja transgênica entraram no Rio Grande do Sul vindas por contrabando da Argentina, razão pela qual foram graciosamente batizadas de "Soja Maradona" (ou seja, boa coisa é que não é, até porque a razão certamente não são as características futebolísticas).

Além disso, a aprovação dos transgênicos foi feita sem levar em conta nenhum parecer do IBAMA, fundamental por se tratar de um produto com importantes impactos ambientais (tais como poluição genética, criação de novas bactérias ou vírus patogênicos e eliminação da biodiversidade, por conta de monoculturas totalmente limpas, isto é, que dizimam tudo que estiver ao redor).

Tem mais! A Anvisa também foi excluída do processo. A ganância humana é tanta que nem com a própria espécie muitos seres se preocupam mais. Entre outras "maravilhas", a soja transgênica pressupõe um aumento no uso de herbicidas. Como ela é resistente a eles, os herbicidas são despejados por aviões (!) sobre as plantações. Será que isso vai parar no nosso prato? Será? Será?

Bem, o fato é que a AS-PTA se dedica ao estudo de formas de agricultura alternativa e vale a pena conferir mais informações no site deles. O link é http://www.aspta.org.br

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Renctas - contra o tráfico de animais silvestres

11 de novembro de 2008

Não sei se vocês conhecem o trabalho da Renctas, uma ONG que combate o tráfico de animais silvestres. Eu já conhecia e acessei mais uma vez hoje o site www.renctas.org.br

Além de acompanhar o trabalho da Renctas, descobri um artigo muito interessante no site e transcrevo-o abaixo. Leiam com atenção.

UM AMBIENTALISTA NO SÉCULO XXI: POR FAVOR, NÃO DEFENDAM A NATUREZA!

Dener Giovanini

Durante uma palestra no ano passado, na cidade mineira de Uberlândia, fiz uma provocação à platéia: disse em alto e bom som que quem realmente se preocupa com a natureza deveria parar de tentar defendê-la. É claro que não dei chance para o auditório se manifestar. As reações seriam bem previsíveis, pois eu estava ali a convite da OPA – Organização de Proteção Ambiental, uma entidade reconhecida por sua forte atuação na defesa ambiental. E a dita platéia, cerca de 150 pessoas, era em sua grande maioria, formada por ativistas da instituição. Assim que comecei a perceber que, subitamente, os assentos das cadeiras começaram a incomodar as pessoas, entendi que quem iria precisar de proteção naquele momento era eu. Socorri-me chamando à frente o presidente da organização, Juscelino Martins que, além de ser um dos mais respeitados empresários desse país, é uma daquelas pessoas que impõe a sua presença através das suas credenciais como ambientalista de visão arrojada e sensata. Com ele ao meu lado, senti-me mais seguro para explicar aquela frase espinhosa que eu tinha acabado de jogar sobre a platéia.

A razão que temos para não defender a natureza é muito simples. Não podemos defender quem é mais forte que nós! E citei, naquele momento, um exemplo prático: quem ali se sentira à vontade para aceitar o cargo de segurança do Michel Tyson? Como você pode querer defender alguém ou algo que é muito mais forte que você?

Eis aí a chave que talvez abra a porta de um novo mundo. Uma nova compreensão do que de fato somos e do que representamos na complexa engrenagem da vida sobre esse planeta.

A nossa essência humana é dominadora. Em nossa história evolutiva sempre buscamos dominar povos e culturas. De uma forma ou de outra, em nossas relações pessoais ou nas relações entre as nações, invariavelmente buscamos impor a nossa individualidade e, principalmente, a nossa mentalidade de conquistador, de senhores da razão.

E assim sempre foi a nossa relação com a natureza. O ser humano sempre enxergou a natureza como uma coisa menor que ele. Mais fraca. Menos importante. O meio ambiente sempre foi um desafio a ser vencido. Conquistado. Repetimos com a Mata Atlântica a relação que os nossos colonizadores mantiveram com os índios que aqui encontraram. Num primeiro momento tentou-se torná-los úteis aos anseios conquistadores. Subjugá-los a força era a meta. Como a prática mostrou-se complicada, passou-se ao plano B: eliminá-los. Da floresta inicialmente também se buscou torná-la útil, extraindo o que fosse possível. Como da carcaça que dela sobrou também nada mais se aproveitava, o passo seguinte também foi eliminá-la.

E assim continuamos soberanos em nossa missão de dominar o mundo. De impor a nossa presença. De reinar sobre tudo e sobre todos.

Na história recente do mundo multiplicaram-se os defensores do meio ambiente. Surgimos – e aqui me coloco entre eles – como surgem os irmãos mais velhos quando entram numa briga para defender seu irmãozinho ameaçado. Ficam lá, de um lado o ameaçador, de outro o defensor, e no meio a natureza. Mesmo inconscientes, nós ambientalistas, estamos reproduzindo o padrão comportamental que deveríamos combater. Nós também enxergamos o meio ambiente como algo fraquinho e frágil, que precisa da nossa “ajuda” para sobreviver. Não compreendemos ou não enxergamos que a nossa própria atitude, gestos e atos apenas reforçam a idéia de que somos supremos em nossa existência sobre a terra. Amplificamos com as nossas palavras o conceito de dominação ancestral do homem sobre a natureza.

O momento atual nos exige uma reflexão profunda. Um mea culpa.

Está na hora de mudar o discurso de irmão mais velho. Vamos entrar na briga sim, mas para dizer: olha, se você se meter com o meu “irmãozinho” você vai se dar muito mal, pois ele é violento, perigoso, tem três metros de altura e está armado até os dentes. Enfim, mudar a nossa postura de supremacia diante da natureza e adotar um comportamento inteligente. Entender de vez que a natureza não precisa da nossa defesa. Reconhecer com humildade a sua força e poder. Colocar-nos em nosso devido lugar. Compreender que o fraco nessa história somos nós, humanos.

Comprar uma briga com a natureza é de uma extrema burrice. Achar que a controlamos ou que a dominamos é talvez um dos maiores erros que a humanidade já cometeu. Seremos varridos da face da terra com a mesma facilidade que limpamos a sujeira que nos incomoda em nossa casa: com água, com vento ou com calor. No fundo devemos apenas compreender que essa briga já está ganha. E não por nós.

Um dia conseguimos superar a nossa “guerra fria”. Agora é a vez da “guerra quente”. Só que os protagonistas não são apenas dois países disputando entre si quem tem mais poder de fogo. A peleja agora é outra. Somos nós contra o planeta. É uma espécie contra milhões. É a luta de quem produz fumaça contra quem detém vulcões.

A partir de hoje eu não quero e não vou mais defender o meio ambiente. Vou apenas temê-lo e por isso, respeitá-lo. Vou tentar entender o que a natureza está dizendo e buscar difundir suas palavras que, se pudessem ser materializadas, soariam mais ou menos assim:

RESPEITE-ME. POR QUE RESPEITO É BOM E EU GOSTO!

*Dener Giovanini é ambientalista e coordenador geral da Renctas.

Fonte: O Eco (disponível no site da Renctas)

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Nova lei contra o uso de sacos plásticos

Lei distrital estabelece que comércio terá de substituir
sacos usados em compras

Por Raphael Veleda - Correio Braziliense
Publicado em 17/10/2008 08:29

Quando usa duas sacolas para acomodar compras pesadas, como garrafas de 2l de refrigerante, a maioria dos consumidores não pensa nos 400 anos que o plástico demora para se decompor na natureza. Alguns, por outro lado, investem em carrinhos de feira ou sacolas reaproveitáveis para diminuir a quantidade de dejetos que vai parar nos lixões, ou pior, nas ruas. Essa consciência ambiental virou lei. Daqui a três anos, se a legislação for cumprida, as embalagens poluentes terão sido totalmente substituídas por opções ecologicamente corretas. O que é bom para o meio ambiente, no entanto, pode pesar no bolso do consumidor.

Foi publicada no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) de ontem a Lei nº 4.218/08, que determina a substituição do uso de sacolas tradicionais no comércio por opções com maior vida útil, as sacolas de tecido, ou por embalagens de plástico biodegradável, que demora 18 meses para se decompor. Os órgãos e entidades públicas também terão de trocar os sacos de lixo por opções que agridam menos o meio ambiente. “O projeto, apresentado em 2007, é uma resposta aos anseios da sociedade, é fruto de uma discussão nacional e mundial em busca da proteção da natureza”, afirma o deputado distrital Batista das Cooperativas (PRP), um dos autores da proposta. Assinaram com ele Rôney Nemer (PMDB), atual chefe da Agência de Fiscalização (Agefiz), e Wilson Lima (PR). “As sacolas plásticas são protagonistas no problema da poluição. Tenho certeza de que essa lei vai pegar”, aposta ainda o parlamentar, que é presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Legislativa.

A primeira resistência ao projeto, apresentado por parlamentares da base governista, foi inesperada. Aprovada no mês passado pela Câmara Legislativa do DF, ela seguiu para a apreciação do governador José Roberto Arruda, que vetou integralmente o texto. “Ligaram-me avisando que ele deveria vetar por temer que seria difícil para os empresários se adequarem, mas eu não concordo com essa tese, já que a lei prevê um período de adaptação de três anos”, defende Batista. Os distritais acabaram derrubando o veto por 17 votos a favor e nenhum contra. Assim, a lei foi promulgada pelo Legislativo e está valendo. O texto mantém os 36 meses para adaptação, mas diz que a empresa que adotar o sistema antes desse prazo ficará isenta do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na compra de embalagens biodegradáveis.

Praticidade
Esquecimento, falta de tempo e praticidade são alguns dos motivos apontados por quem não abandona as sacolas de plástico. A economista Virgínia Pompeu, 43 anos, por exemplo, até possui uma bolsa de pano para usar no lugar das sacolinhas. “Mas para compras grandes, como a que acabei de fazer, não há outra forma de embalar”, explica. Ela conta que aproveita os sacos para forrar as lixeiras da cozinha e do banheiro. “Já que acabei levando o plástico para casa, é uma forma — não sei se correta — de reutilizá-lo. Seria ótimo se substituíssem as sacolas por materiais que se desintegram com maior facilidade na natureza”, completa.

A consultora de vendas Rúbia Araújo, 44 anos, gostou da novidade. Mesmo antes da lei, ela já buscava alternativas para evitar gastar tanto plástico, mas nem sempre conseguia. “Geralmente trago a minha sacola de tecido. O problema é quando venho fazer compras com pressa: acabo esquecendo e uso as de plástico, mesmo”, conta. A consumidora se diz totalmente a favor de medidas que evitem mais poluição.

Em Belo Horizonte (MG), o prefeito Fernando Pimentel (PT) sancionou uma lei semelhante à do DF no fim de fevereiro deste ano. A legislação também determinou um período de adaptação, mas as empresas, sobretudo as maiores, já adotam a sacola ecológica, que custa 15% a mais. Em Brasília, vários supermercados oferecem a seus clientes a sacola de tecido. Os preços, no entanto, ainda variam muito, entre R$ 2 e R$ 20.

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